Domingo, Agosto 20, 2006

Reflexos

Espelhos






ao som das cigarras....

Quinta-feira, Março 23, 2006

da próxima vez...(II)

Vera olhava para o relógio, 01:00, tinham passado 5 minutos desde que olhara as horas. Um misto de emoções percorria-lhe a alma. O Rui ainda não tinha chegado...por onde andaria. Já lhe tinha ligado para o telemóvel duas vezes sem resposta. Os miúdos já dormiam, deitara-os às onze como era hábito. O facto de receberem inesperadamente aquele dinheiro tinha-a deixado exultante à tarde. Era a solução para os problemas que atravessavam. Agora, na escuridão do quarto onde o relógio era a única luz, a angustia corria-lhe nas veias. Será que ele cedeu à tentação? Embebedou-se e foi ter com alguma “amiga”? Ou pior foi jogar? Devido a isso já se tinham separado por uns meses.

Rui seguia pela marginal em direcção a Oeiras. Porra! Que é que vou dizer à Vera? Não restou nem um cêntimo!!! Estou lixado...Entrou na rua do seu prédio, a sorte bafeja e encontra um lugar à porta. Raios, só para arranjar um lugar é que tenho sorte! À porta do apartamento as mãos tremem. Por momentos pensa em ir embora e só voltar de manhã...não, isso seria ser cobarde. Abre a porta devagar, os miúdos já devem estar a dormir. Vê a luz a fugir debaixo da porta do quarto. Ela está acordada...como é que lhe vou dizer...merda!!!

Vera ouve o barulho de um carro a chegar, acerca-se da janela e vê que é o Rui. Acende a luz do candeeiro e senta-se na cama. A angustia cresce, acompanhada do medo da realidade que está para vir. Pensa nos filhos, não vou discutir, nem berrar, o quer que seja tenho de manter a calma. Se calhar estou aqui a inventar coisas e ele só foi beber um copo com os amigos. Era a réstia de esperança a falar-lhe à consciência.

A porta abre-se, Rui dá dois passos e fecha-a. Vera fita-o procurando ler na expressão o que se tinha passado. Durante alguns segundos ficam assim a olhar-se mutuamente num silêncio sepulcral. Não havia duvidas, a expressão dele era grave e cabisbaixa. O que aconteceu Rui? Perguntou Vera num tom frio. Desculpa-me, não sei o que me passou pela cabeça, fiz merda! As mãos tremiam-lhe e uma gota de suor percorria-lhe as costas. Vera levanta-se da cama e aproxima-se. O cheiro a tabaco e álcool eram evidentes. Ou teve com alguma rameira ou no jogo pensava. Deixa-te de meias palavras e diz o que fizeste!! Tentava controlar-se, mantendo a voz baixa e fria. Bem...não sei como te dizer...mas...engole em seco, ela vai-me matar. Diz de uma vez por todas, ao menos sê homem!!!! Rui sentiu-se encurralado, não valia a pena tentar pôr paninhos quentes. Perdi o dinheiro todo no jogo! Todo nem um cêntimo ficou!!! Um misto de raiva e desespero tomavam conta de Vera. Como foste capaz? Na situação em que estamos!!! Não pensaste nos teus filhos?!!! Perdoa-me foi mais forte do que eu.... Os olhos de Vera começam a ficar brilhantes, eram lágrimas de raiva que corriam pela face. Rui encolhia-se, sentia-se pequeno e insignificante. Eu arranjo maneira de remediar as coisas, prometo!! Ai sim?!! Como? Vais jogar amanhã e recuperar tudo? Poupa-me!!! Vera já não conseguia controlar-se com a ultima palavra a sair num tom alto. Não fales tão alto que acordas as crianças, por favor....Vai para o raio que te parta, tivesses pensado nisso antes!!!! Vera virou as costas, dirigiu-se ao roupeiro e tirou umas calças e uma blusa que maquinalmente vestiu. Que estás a fazer?! Não obteve resposta Rui. Calçou umas sapatilhas e pegou na mala. Aonde vais? Vera olhou-o fulminando-o. Passou por ele e ao sair do quarto limitou-se a dizer Vou para onde não te veja, maldito sejas!!! Rui ainda tentou dizer algo mas as palavras ficaram embargadas na garganta, só conseguiu murmurar um desculpa-me quando a porta de entrada bateu e Vera já ia longe....

Sexta-feira, Março 03, 2006

Intervalo

Por mais uns tempos não vou ter acesso à internet e, por isso não actualizarei o blog, mas este não parou. Obrigado a todos os que aqui vão passando.

Terça-feira, Janeiro 10, 2006

da próxima vez....

As luzes brilhavam como sempre, atraindo todos para a Meca do jogo. Rui já ia na sua terceira volta de carro ao Casino do Estoril, ainda estava indeciso se ia jogar….o dinheiro que tinha recebido inesperadamente nessa tarde fervia nos bolsos. O frenesim dos carros a chegarem e das pessoas a entrarem deram-lhe confiança, vou jogar, hoje estou numa maré de sorte, pagaram-me aquele trabalho de há um ano, é um sinal de bom augúrio. Como que por um passe de mágica vê uns metros à frente um Mercedes a sair, sim definitivamente estou nos meus dias, tudo me corre bem! À medida que se aproxima da porta do Casino a adrenalina começa a correr-lhe nas veias. O porteiro cumprimenta-o, é um velho conhecido de muitas noites de euforia e desilusão. Na verdade mesmo quando ganhava acabava sempre por perder, a sedução de tornar a ganhar, a ganância, levavam-lhe sempre o dinheiro. A meio do lobi para, o som das slot machines, o cair das moedas inebria-o. Sente uma felicidade imensa como se tivesse chegado a casa. Fica indeciso entre começar nas slots ou ir logo para a roleta…vou para a roleta as slots são máquinas, na roleta sente-se o cair da bola, o saltitar até cair no número, o número que eu vou escolher, estou confiante. Caminha em direcção ás slots, passa pelo Du Arte Garden onde uma jovem canta Blues, as mesas estão com poucas pessoas, ao fim ao cabo é terça-feira. Nada disso lhe interessa. Subitamente sente o telemovel a vibrar no bolso do casaco, é a Vera sua mulher. Não sabe se atende….ela não pode saber que estou aqui, começa logo com aquelas histórias que vou perder tudo, que mais vale poupar esse dinheiro ou usa-lo para comprar umas coisas que nos fazem falta. E é verdade que temos andado com algumas dificuldades….porque raio lhe disse que tinha recebido aqueles 30 000 euros!!! Não atendo, hoje saio daqui com o dobro ou o triplo na certa e ai ficamos desafogados!!! Rapidamente chega à roleta e troca o dinheiro pelas fichas. A primeira jogada corre bem e ganha. O seu entusiasmo cresce, continua a jogar ganhando algumas vezes perdendo muitas. Ao fim de uma hora já tinha perdido metade 15 000 euros. Dá-se conta do perigo que corre, vai ao bar e pede mais um James Martin’s, o seu quarto da noite. Por instantes fica a olhar para o gelo a derreter-se no Whisky….porra já derreti metade do dinheiro, nervosamente olha por cima do ombro para a mesa da roleta…jogo…não jogo…pensa na Vera e nos filhos, não posso chegar a casa e dizer que perdi metade a jogar, é desta que ela sai de casa com eles. Bebe de um trago o James Martin’s, dá-lhe coragem e animo, com o que tenho ainda posso deixar o Casino a perder, o problema está na roleta, vou para o Blackjack, as cartas sempre me deram alegrias!!! Agradece ao barman o whisky e sai disparado para a mesa. Este hoje vai deixar cá tudo, não sabe parar nem quando está a perder nem quando ganha, aqui há uns meses ganhou ai 100 000 euros logo no ínicio da noite em vez de ir embora estoirou tudo, qualquer dia deixa cá o carro ou a casa, mais um que se desgraça e da maneira que está a beber é na certa hoje, responde outro barman. Ricardo senta-se à mesa, as mãos suadas tremem, o coração bate-lhe forte fazendo o álcool espalhar-se pelo corpo. As cartas vão saindo, e ele vai pedindo, arriscando cada vez mais à medida que o dinheiro se esfuma. Não pode ser, hoje tudo me correu bem a minha hora tem de chegar. Vira-se para o bar e faz sinal ao barman para mais um James Martin’s. Vê quanto dinheiro lhe resta, 5 000 euros, ainda dá, o azar não dura sempre…A coupier vê a duvida nos olhos de Ricardo, quer parar por hoje? Não! Agora vou ganhar na certa, vou levar a mesa à falência. Ao fim de meia hora o dinheiro tinha fugido, o que restava pouco mais dava do que para um jantar. Ricardo levantou-se pesarosamente, recebe um bom noite da coupier. Dirige-se para a porta de saída, a realidade nua e crua começa a aproximar-se dele, o que fiz? Como é possivel? Tinha tudo para ganhar, e agora nem dinheiro para beber um bom whisky noutro lado!!! O porteiro vendo-o cabisbaixo à saida pergunta-lhe como correu? Mal, muito mal. Deixe estar da próxima vez vai ganhar e recupera tudo. Ricardo não respondeu, queria sair dali, fugir, já não era a primeira vez que ouvia aquela frase, da próxima vez….A imagem de Vera e dos filhos veio-lho à cabeça. O que lhe vou dizer? As lágrimas começaram a correr pela face, o vicio tinha novamente levado a melhor, o dinheiro que ia dar para pagar a despesas com a universidade do Carlos e da Sandra tinha ido, e pior tinham já uma prestação da casa atrasada….merda, desta vez fi-la bonita…

Quarta-feira, Janeiro 04, 2006

Espirais



A espuma dos dias...

Domingo, Janeiro 01, 2006

Sem titulo


SANTIAGO YDÁÑEZ, 2002

Quinta-feira, Dezembro 29, 2005

The Absinthe Drinker


Manet 1859

Um olhar no infinito dado pelo absinto, eu prefiro a vodka, não me faz ver mas ajuda-me a esquecer...

Segunda-feira, Dezembro 26, 2005

O passar dos dias...

Vivo no silêncio dos dias,
no amargo do sentir,
tenho tudo e não quero,
uma mão cheia de nada
onde jaz a solidão e a dor.
Em cada começo o fim,
um circulo vicioso onde
as coisas acontecem repetidamente.
O fim...esse vazio de onde brota
cada começo condenado ao
qual estou votado.
Nada resta, só ponto de partida
de onde nunca sai...

Segunda-feira, Dezembro 12, 2005

Poesia Fernando Pessoa

À la maniére de António Botto

Para quê tanta clareza?
Às vezes os dias longos
Pesam Tanto!

Devemos ser misteriosos.
Dizes-me sempre o que sentes...
Ah, esconde-me qualquer cousa!...

No amor deve haver segredo.
Os corpos não precisam explicados
Para serem Formosos.

[1920-1921]


A noite desce tranquila,
Lâmpada desapagada,
De argila,
Negada,
Traz sossego? Não sou nada.

A noie baixa na calma
De o dia deixar de ser.
Minha alma?
Que quer
O que em mim sabe se quer?

[1918-1919]


Perguntais o que quero. Beber ao ponto
De não saber se bebo ou se bebi
É porque (e eu peço que não dês desconto
Ao que digo), arrastado longe daqui
No regaço negro onde me encontro
Fitei muito de perto o Ser-em-si
E dessa nera luz que cego vi
E fiquei precisando ficar tonto

[8-3-1910]


Fernando Pessoa

Sexta-feira, Dezembro 09, 2005

A Woman Reading a Letter



Pieter de Hooch, 1664

Twelve Sunflowers in a Vase




















Vincent van Gogh, Agosto 1888

Moinhos...

Corre uma brisa fria pela rua, arrastando as folhas das árvores pelo alcatrão estéril. Nas árvores ainda resistem algumas, amarelecidas lutam com as ultimas forças antes de caírem rumo ao vazio. Vejo todo este cenário da janela, não sei bem porque me encontro aqui à horas simplesmente a fitar o horizonte. É uma forma de passar o tempo, preenche-lo com algo, mesmo que seja nada. Lá fora um mundo que me engole e trucida, as batalhas travadas e perdidas, o sabor da derrota que vela por mim. O sol que brilha convida-me traiçoeiramente para sair, enfrentar a vida fora do meu casulo onde me sinto forte. Sozinho vivo melhor, não tenho desilusões nem receios, uma solidão misantrópica. Até algum tempo atrás ainda tentei ingenuamente correr atrás do que queria, embalado na ilusão que era possível, lutei, cai, levantei-me, investi contra ventos e marés. Agora sei que não fui mais que um cavaleiro de Cervantes a lutar contra moinhos de vento, o desfecho já estava traçado. A derrota, o falhanço. A verdade que não queria ver nem sentir. Sei que foi assim, aprendi a lição, recolho-me no meu casulo com o fel da minha vivência. Por vezes um fogacho de esperança, uma reminiscência desse acreditar, procuro apaga-la rapidamente, prefiro assim, sem ilusões não tenho desilusões. Este não sentir é o melhor a que posso ambicionar.

Terça-feira, Dezembro 06, 2005

Caco

Sou um conjunto de cacos que desesperadamente se tentam unir, fazer um todo coerente. As várias vertentes da minha vida andam desgarradas, caminhando aleatoriamente. Marcadas por fogachos inúteis e inconsequentes que não levam lado nenhum. Desta forma vivo sem um sentido ou rumo. Da euforia à depressão é um instante, tudo e nada faz sentido, um turbilhão de emoções torna a minha realidade irreal. Levantar a cabeça? Lutar? Ambicionar? Vocábulos interessantes fora do meu léxico. Sou uma caravela que perdeu as velas, navega ao sabor dos humores de Neptuno.